6. GERAL 18.9.13

1. GENTE
2. VIDA DIGITAL  O PROBLEMA  O PREO
3. GUSTAVO IOSCHPE  DEVO EDUCAR MEUS FILHOS PARA SEREM TICOS?
4. OLIMPADA  UMA ESCOLHA SEGURA
5. CIDADES  AT MORAR NA FAVELA FICOU CARO
6. DEMOGRAFIA  SEM PORTA DE SADA
7. DEMOGRAFIA  CENSO SEM SENTIDO
8. SOCIEDADE  LECIONA-SE BRASIL: NO DIGA NO

1. GENTE
JULIANA LINHARES. Com Marlia Leoni e Thas Botelho

PRNCIPE OCIOSO
O exemplo est no palcio ao lado: WILLIAM passou a vida vendo a frustrao de seu pai, o prncipe Charles, em se preparar infindavelmente para ser rei, sem um trabalho definido. Mesmo assim, ele aceitou deixar o emprego que adora, como piloto de resgate da Fora Area baseado no Pas de Gales. Tambm encerrou de vez a carreira militar. Enquanto decide o prximo passo, vai passar um ano em Londres no novo palacete, concentrado nas palpitantes funes beneficentes exigidas aos membros da famlia real.  primeira delas desde o nascimento do filhinho George, William foi com KATE, que deslumbrou a todos com a linda e cintilante presena. Menos quem procurou  em vo  algum resqucio da maternidade to recente.

CARA PLIDA?
Esse cara  idiota?, fuzilou a cantora ANITTA ao saber da reportagem de um jornal ingls que dizia que ela havia clareado a pele para se encaixar no padro branco do mercado. Responde ela: Antes de ficar famosa, como no havia nada, eu passava o dia na praia, tomando sol. Agora, estou amarela, com as veias aparecendo, porque trabalho muito. Como brasileiras de todos os matizes, a cantora alisa o cabelo, mas Jonathan Watts, o ingls que cogitou plstica, cremes ou Photoshop  a primeira opo no existe, a segunda no funciona e a terceira teria de ser transposta para a vida real , salta do particular para o geral: Estive no Rio e fiquei chocado com as diferenas muito visveis entre os ricos da Zona Sul e os moradores das favelas. Sapateia a poderosa: Meus pais moram em casa com goteira, sem ar-condicionado, e meu carro  de marcha. No estou rica. Mas vou ficar.

O CRU DE MILEY
Foi quase uma semana normal na vida da cantora MILEY CYRUS, 20. Ela danou com anes na Alemanha, passou sete horas num caf de Amsterd  provavelmente no tomando caf  e apareceu nua num videoclipe em que contracena com uma bola de demolio. Ningum aguenta mais o ar de yorkshire resfolegante da ex-princesinha da Disney, sempre com a lngua de fora? Nada disso. Seus infames saracoteios numa premiao musical atingiram recordes de acesso. Os americanos viram doze vezes mais pginas da internet sobre Miley do que a respeito da Sria, e isso quando parecia que haveria um ataque punitivo. Ainda vamos ver muito mais de sua verso do Cru. 

AMPLIAAAANDO OS HORIZONTES
Contorcionismo agora s com o corpo devidamente coberto e nos aparelhos de ginstica. Mudar de vida deixou um sorriso de satisfao no rosto de SUZANA ALVES, 35, mas a elasticidade ela cultiva h muito tempo. Suzana estudou bal e personificou a inesquecvel Tiazinha, danarina que incendeia imaginaes masculinas at hoje. Depois de se converter   Igreja Batista, exalta a transformao. "Nos testemunhos, conto que eu quis me encontrar e que hoje consigo ter vida. No sou mais artista e jamais voltaria para a televiso s por dinheiro", conta ela, que, desde que largou a mscara e o chicotinho, tambm estudou canto lrico, casou-se com o ex-tenista Flavio Saretta  igualmente convertido  e abriu um estdio de pilates em So Paulo. "A tcnica me ajuda a ter mais domnio do meu corpo", diz.


2. VIDA DIGITAL  O PROBLEMA  O PREO
A Apple lanou a verso mais barata do iPhone para conquistar a China, o maior mercado de smartphones do mundo. Mas, a 733 dlares, o iPhone 5C  caro demais para os chineses.
VICTOR CAPUTO

     A Apple comeou a trabalhar numa verso mais barata do iPhone dois anos atrs. Desde os primeiros rabiscos no projeto, o objetivo estava claramente definido: aumentar a presena da empresa na China, na ndia e no continente africano. A cereja do bolo sempre foi a China. O mercado chins de smartphones  o maior do mundo, com venda anual de 301 milhes de unidades  mais que o dobro do segundo colocado, os Estados Unidos. Sozinha, a China concentra 33% das vendas mundiais de smartphones. A Apple, que criou do zero o segmento com o lanamento do iPhone, em 2007, detm apenas 5% do fabuloso mercado chins. No topo do ranking est a Samsung, com 18%. 
     O iPhone 5C, o primeiro modelo popular da Apple, anunciado quase simultaneamente nos dois pases na tera-feira da semana passada, deveria ser a chave da porta de entrada nos negcios da China. O problema  que o iPhone 5C chega  China com preo de artigo de luxo. 
     Nas lojas americanas, o aparelho custa 99 dlares, para quem contrata um plano de dois anos com uma operadora, e 549 dlares, sem subsdio. Na China, o preo dispara para 733 dlares. Oito em cada dez smartphones vendidos no pas  a maioria de fabricantes asiticos  custam em torno de 200 dlares. Dois fatores explicam o preo maior do produto da Apple: o imposto de importao de 17% cobrado pelos chineses e o fracasso da tentativa de parceria com a China Mobile, que tem mais de 700 milhes de assinantes. As dimenses da decepo com o preo do iPhone 5C na China refletiram-se no dia seguinte na Bolsa de Valores de Nova York, com a queda de 5,4% no valor das aes da Apple. 
     A propsito, o iPhone 5C tambm  caro demais para disputar espao na ndia. No segundo pas mais populoso do mundo, a participao da Apple nas vendas de smartphones est abaixo de 4%. A maioria dos 600 milhes de indianos com telefone celular usa modelos bsicos, em contratos pr-pagos. 
     As outras novidades apresentadas na tera-feira passada no foram suficientes para animar os investidores. Alm do iPhone 5C, foi lanado o iPhone 5S, verso atualizada do modelo anterior. No prximo dia 18, estar disponvel para download o iOS 7, a nova verso do sistema operacional para iPods, iPads e iPhones. Pouco se sabe, at agora, sobre o teor de sua evoluo. J as mudanas no 5S no impressionaram por ser previsveis: um processador duas vezes mais potente, um dispositivo mais sensvel  luz na cmera fotogrfica e um flash duplo. Todos esses itens podem ser encontrados em aparelhos da concorrncia. Uma inovao  o aparelho em tons dourados. Antes o iPhone s podia ser preto ou branco. 
     A maior evoluo  o sensor de impresses digitais instalado no boto frontal. Permite que a senha alfanumrica seja substituda pela presso do dedo. A novidade no foi bem recebida na web, onde se formou, num primeiro momento, uma corrente de indignados e crticos do novo recurso. Basicamente, manifestavam o temor de que a Agncia de Segurana Nacional (NSA), rgo do governo americano que espiona tudo o que circula na internet, pudesse ter acesso  digital usada para desbloquear a tela do iPhone 5S. A Apple garantiu que no h esse risco, pois os dados no sero enviados aos servidores da empresa. "O iPhone 5S foi apenas uma atualizao sem graa. O verdadeiro foco da Apple est no modelo mais barato, destinado ao mercado popular", disse a VEJA Charles Golvin, especialista em produtos da Apple da consultoria Forrester. Em piadas pela internet e na televiso, o 5S est sendo chamado de "S de same" (igual, em ingls). 
     O iPhone 5C  o iPhone 5 com nova roupagem. O alumnio da carcaa foi substitudo por plstico, o que reduziu o custo de produo. O aparelho  oferecido em cinco cores (branco, rosa, amarelo, azul e verde). "Para o mercado americano,  invejvel a estratgia de marketing desse modelo", diz Marcelo Tripoli, presidente brasileiro da maior agncia de publicidade digital do mundo, a americana SapientNitro. "Antes, a Apple lanava um modelo e barateava o velho, o que no era grande atrativo para os consumidores. Desta vez, trocou o modelo velho por algo que, ao menos na aparncia,  novo." 
     Desde a morte do fundador Steve Jobs, em 2011, a empresa que lanou o iPod, o iPhone e o iPad tem dificuldade para manter o ritmo de inovao e perdeu 33% de valor de mercado no ltimo ano. "Exigimos demais da Apple pelo padro que alcanou com Jobs", pondera Golvin. " preciso entender que uma empresa no consegue revolucionar seu setor a cada dois anos." 

EM LUGAR DA SENHA
     Um desafio moderno  lembrar as senhas. Os smartphones com sistema Android oferecem a opo de trocar a senha alfanumrica por desenhos geomtricos feitos com a ponta do dedo. No novo iPhone 5S, a Apple recorreu  mais antiga tecnologia biomtrica, a impresso digital. O sensor  o halo metlico em torno do novo e maior boto frontal. O recurso serve para destravar a tela, o que dispensa a necessidade de decorar a senha, e para realizar compras na App Store. 
     O conceito  bom. A impresso digital de cada pessoa  nica e, como dizem os piadistas, ningum vai esquec-la em casa.  cedo, contudo, para anunciar o fim da  senha. A Motorola testou a leitura de digitais em smartphones e desistiu por dificuldades tcnicas: os erros so comuns devido a vrios fatores, como dedos midos ou secos demais. A Apple garante ter solucionado os problemas habilitando o sensor para reconhecer padres subcutneos.  eficiente? A resposta s no dia 20, quando o iPhone 5S chegar s lojas. 

A expectativa...
Os chineses previam o iPhone 5C a 490 dlares
...e a decepo
O iPhone 5C vai custar na China 733, dlares.
Nos Estados Unidos, subsidiado pela operadora, sai por 99 dlares.
So duas as razes para o preo alto
1  O acrscimo de 17% do imposto de importao.
2  As operadoras chinesas no do desconto na compra de aparelhos.
E o concorrente  mais barato
O preo mdio de um smartphone na China  200 dlares.
Um aparelho da marca Xiaomi, a maior fabricante chinesa, com caractersticas equivalentes s do iPhone 5C, custa 290 dlares.
A Apple est em stimo lugar na China, com 5% do mercado de smartphones, bem atrs da lder Samsung, que tem 18%. Sua participao tem diminudo a um ritmo superior a 10% ao ano.
O efeito na bolsa
As aes da Apple caram 5,4% em um dia, aps o anncio do iPhone 5C, por ele no ser to barato quanto se esperava.


3. GUSTAVO IOSCHPE  DEVO EDUCAR MEUS FILHOS PARA SEREM TICOS?
     Quando eu tinha uns 8 ou 9 anos, saa de casa para a escola numa manh fria do inverno gacho. Chegando  portaria, meu pai interfonou, perguntando se eu estava levando um agasalho. Disse que sim. Ele me perguntou qual. "O moletom amarelo, da Zugos", respondi. Era mentira. No estava levando agasalho nenhum, mas estava com pressa, no queria me atrasar. 
     Voltei do colgio e fui ao armrio procurar o tal moletom. No estava l, nem em nenhum lugar da casa. Gelei.  noite, meu pai chegou em casa de cara amarrada. Ao me ver, tirou da pasta de trabalho o moletom. E me disse: "Eu no me importo que tu no te agasalhes. Mas, nesta casa, nesta famlia, ningum mente. Ponto. T claro?". Sim, clarssimo. Esse foi apenas um episdio mais memorvel de algo que foi o leitmotiv da minha formao familiar. Meu pai era um obcecado por retido, palavra, tica, pontualidade, honestidade, cdigo de conduta, escala de valores, menschkeit (firmeza de carter, decncia fundamental, em idiche) e outros termos que eram repetitiva e exaustivamente martelados na minha cabea. Deu certo. Quer dizer, no sei. No Brasil atual, eu me sinto deslocado. 
     At hoje chego pontualmente aos meus compromissos, e na maioria das vezes fico esperando por interlocutores que se atrasam e nem se desculpam (quinze minutos parece constituir uma "margem de erro" tolervel). At hoje acredito quando um prestador de servio promete entregar o trabalho em uma data, apenas para ficar exasperado pelo seu atraso, "veja bem", "imprevistos acontecem" etc. Fico revoltado sempre que pego um txi em cidade que no conheo e o motorista tenta me roubar. Detesto os colegas de trabalho que fazem corpo mole, que arranjam um jeitinho de fazer menos que o devido. Tenho cada vez menos visitado escolas pblicas, porque no suporto mais ver professores e diretores tratando alunos como estorvos que devem ser controlados. Isso sem falar nas quase lceras que me surgem ao ler o noticirio e saber que entre os governantes viceja um grupo de imorais que roubam com criatividade e desfaatez. 
     Scrates, via Plato (A Repblica, Livro IX), defende que o homem que pratica o mal  o mais infeliz e escravizado de todos, pois est em conflito interno, em desarmonia consigo mesmo, perenemente acossado e paralisado por medos, remorsos e apetites incontrolveis, tendo uma existncia desprezvel, para sempre amarrado a algum (sua prpria conscincia!) onisciente que o condena. Com o devido respeito ao filsofo de Atenas, nesse caso acredito que ele foi excessivamente otimista. Hannah Arendt me parece ter chegado mais perto da compreenso da perversidade humana ao notar, nos ensaios reunidos no livro Responsabilidade e Julgamento, que esse desconforto interior do "pecador" pressupe um dilogo interno, de cada pessoa com a sua conscincia, que na verdade no ocorre com a frequncia desejada por Scrates. Escreve ela: "Tenho certeza de que os maiores males que conhecemos no se devem quele que tem de confrontar-se consigo mesmo de novo, e cuja maldio  no poder esquecer. Os maiores malfeitores so aqueles que no se lembram porque nunca pensaram na questo". E, para aqueles que cometem o mal em uma escala menor e o confrontam, Arendt relembra Kant, que sabia que "o desprezo por si prprio, ou melhor, o medo de ter de desprezar a si prprio, muitas vezes no funcionava, e a sua explicao era que o homem pode mentir para si mesmo". Todo corrupto ou sonegador tem uma explicao, uma lgica para os seus atos, algo que justifique o porqu de uma determinada lei dever se aplicar a todos, sempre, mas no a ele(a), ou pelo menos no naquele momento em que est cometendo o seu delito. 
     Cai por terra, assim, um dos poucos consolos das pessoas honestas: "Ah, mas pelo menos eu durmo tranquilo". Os escroques tambm! Se eles  tivessem dramas de conscincia, se travassem um dilogo verdadeiro consigo e seu travesseiro, ou no teriam optado por sua "carreira" ou j teriam se suicidado. Esse dilogo consigo mesmo  fruto do que Freud chamou de superego: seguimos um comportamento moral porque ele nos foi inculcado por nossos pais, e reneg-lo seria correr o risco da perda do amor paterno. 
     Na minha viso, s existem, assim, dois cenrios em que  objetivamente melhor ser tico do que no. O primeiro  se voc  uma pessoa religiosa e acredita que os pecados deste mundo sero punidos no prximo. No  o meu caso. O segundo  se voc vive em uma sociedade tica em que os desvios de comportamento so punidos pela coletividade, quer na forma de sanes penais, quer na forma do ostracismo social. O que no  o caso do Brasil. No se sabe se De Gaulle disse ou no a frase, mas ela  verdadeira: o Brasil no  um pas srio. 
     Assim  que, criando filhos brasileiros morando no Brasil, estou s voltas com um deprimente dilema. Acredito que o papel de um pai  preparar o seu filho para a vida. Essa  a nossa responsabilidade: dar a nossos filhos os instrumentos para que naveguem, com segurana e destreza, pelas dificuldades do mundo real. E acredito que a tica e a honestidade so valores axiomticos, inquestionveis. Eis a o dilema: ser que o melhor que poderia fazer para preparar meus filhos para viver no Brasil seria no aprision-los na cela da conscincia, do dilogo consigo mesmos, da preocupao com a integridade? Tenho certeza de que nunca chegaria a ponto de incentiv-los a serem escroques, mas poderia, como pai, simplesmente ser mais omisso quanto a essas questes. Tolerar algumas mentiras, no me importar com atrasos, no insistir para que no colem na escola, no instruir para que devolvam o troco recebido a mais... 
     Tenho pensado bastante sobre isso ultimamente. Simplesmente o fato de pensar a respeito, e de viver em um pas em que existe um dilema entre o ensino da tica e o bom exerccio da paternidade, j  causa para tristeza. Em ltima anlise, decidi dar a meus filhos a mesma educao que recebi de meu pai. No porque ache que eles sero mais felizes assim  pelo contrrio , nem porque acredite que, no fim, o bem compensa. Mas sim porque, em primeiro-lugar, no conseguiria conviver comigo mesmo, e com a memria de meu pai, se criasse meus filhos para serem pessoas do tipo que ele me ensinou a desprezar. E, segundo, tentando um esboo de resposta mais lgica, porque sociedades e culturas mudam. Muitos dos pases hoje desenvolvidos e honestos eram antros de corrupo e sordidez 100 anos atrs. Um dia o Brasil h de seguir o mesmo caminho, e a a retido que espero inculcar em meus filhos (e meus filhos em seus filhos) h de ser uma vantagem, e no um fardo. Oxal. 
GUSTAVO IOSCHPE  economista


4. OLIMPADA  UMA ESCOLHA SEGURA
Tquio ganhou o direito de sediar os Jogos de 2020, ao bater Istambul e Madri, por ser a cidade que parece estar vacinada contra crises econmicas e polticas imprevisveis.
ALEXANDRE SALVADOR

Entrega garantida", "certeza em tempos incertos" e "estar em boas mos." Expresses como essas foram repetidas  exausto pelos organizadores da campanha de Tquio durante a eleio para a escolha da cidade-sede da Olimpada de 2020, anunciada no sbado 7, em Buenos Aires. Os integrantes do Comit Olmpico Internacional (COI) preferiram a segurana e a experincia oferecidas pela capital japonesa  a cidade sediou uma edio dos Jogos em 1964. O resultado das urnas deixou evidente a inteno em afastar surpresas desagradveis que, na viso dos dirigentes do COI, poderiam acontecer com as outras duas finalistas: Istambul e Madri. Contra a cidade turca pesaram o desfecho violento de protestos recentes e a instabilidade poltica e militar na vizinha Sria. J a proposta da capital espanhola, mesmo primando pela austeridade, no inspirou confiana em razo da profunda crise econmica do pas. 
     A deciso de escapar de qualquer risco pode ser explicada pelos problemas recentes enfrentados com as sedes dos dois prximos grandes eventos que sero promovidos pela entidade dos cinco anis: os Jogos de Inverno de Sochi, na Rssia, em fevereiro do ano que vem (veja o quadro na pg. ao lado), e a Olimpada no Rio, em 2016. O novo presidente do COI, o alemo Thomas Bach, tambm eleito na sesso realizada na capital argentina, foi suave como uma sonata nas crticas. Coube ao novo vice-presidente da entidade, menos sujeito  ribalta, bater pesado na organizao brasileira: "Estamos todos preocupados", disse o australiano John Coates. "No  impossvel, mas eles precisam desesperadamente de esforos mais concentrados em alguns projetos de infraestrutura e locais de competio." No ms passado, vazou um relatrio confidencial do comit sobre o andamento das obras para 2016. O documento afirma que apenas metade do planejado est em dia e h atrasos que j comprometem a excelncia do evento. Dar tudo certo, ao fim, mas com muita dor de cabea e muito provavelmente com oramento estourado, como ocorreu nos Jogos Pan-Americanos de 2007. 
     A nica dvida levantada em relao  candidatura de Tquio  possveis contaminaes provocadas pelo vazamento da usina nuclear de Fukushima, a 250 quilmetros da capital, severamente abalada pelo tsunami de maro de 2011  foi rebatida com veemncia pelo primeiro-ministro do Japo, Shinzo Abe, que compareceu  cerimnia: "A gua contaminada isolou-se numa rea de 0,3 quilmetro quadrado e no h, nem haver, problemas para a sade". A favor dos japoneses sobram outras certezas: o fundo de 4,5 bilhes de dlares j separado para a construo de dez estruturas permanentes, entre elas o projeto futurista do novo estdio olmpico, de autoria da arquiteta Zaha Hadid (a mesma que assinou o belssimo Parque Aqutico de Londres); a comprovada eficincia do sistema de transporte urbano de Tquio; e a experincia em sediar grandes eventos esportivos  alm da Olimpada de 1964, o Japo j recebeu duas edies dos Jogos de Inverno, em 1972 e 1998, alm da Copa do Mundo de 2002, realizada em conjunto com a Coreia do Sul. 
     A escolha de Tquio  segura, mas o relgio suo do COI costuma andar descompassado com a realidade. Sete anos  tempo demais para garantir que a certeza de hoje ser a mesma de amanh. Os Jogos de 1968, no Mxico, so mais conhecidos hoje pelo massacre de estudantes nas vsperas da competio e pelos punhos erguidos dos americanos panteras negras Tommie Smith e John Carlos do que propriamente pela espetacular marca de Bob Beamon no salto em distncia. No Rio, houve euforia no anncio de 2009, com Lula de garoto-propaganda  mas no meio do caminho a economia derrapou, brotaram os protestos de junho passado e o medo dos polticos subiu ao pdio. Imagina-se que em Tquio o futuro seja mais calculado  mas ventos econmicos ruins, ou uma improvvel reviravolta nas anlises de Fukushima, podem virar tudo de cabea para baixo.

O DUVIDOSO PELO CERTO
Mesmo com os piores ndices de apoio popular  realizao dos Jogos, Tquio convenceu os integrantes do COI principalmente pela capacidade, comprovada, de abrigar grandes eventos  e com oramento que supera em apenas 50% o austero plano de Madri.

APROVAO POPULAR (enquete encomendada pelo COI e divulgada em abril)
Istambul (Turquia)
Na cidade 83%
No pas 76%

Madri (Espanha)
Na cidade 76%
No pas 81%

Tquio (Japo)
Na cidade 70%
No pas 67%

ORAMENTO PREVISTO (EM DLARES)
Istambul 20 bilhes
Madri 5 bilhes
Tquio 7,8 bilhes

TENTATIVAS DE SEDIAR OS JOGOS
ISTAMBUL 
Candidaturas 5
Vitrias 0

MADRI
Candidaturas 4
Vitrias 0

TQUI
Candidaturas 4
Vitrias 2

Fontes: Comit Olmpico Internacional (COI) e comits organizadores.

A LEI ANTIGAY NO GELO
Thomas Bach dava entrevistas como novo presidente do COI quando recebeu uma ligao: era Vladimir Putin. Em seguida, Bach tratou de esclarecer sobre o que no conversaram: "No discutimos a lei". O alemo se referiu  lei que probe a "propaganda homossexual" na Rssia e que tem apoio do prprio Putin, de Yelena Isinbaeva, da Igreja Ortodoxa e de boa parte da opinio pblica. A cinco meses da Olimpada de Inverno, em Sochi, integrantes do COI j foram alertados por patrocinadores sobre os possveis prejuzos caso a competio fique em segundo plano por causa de protestos durante os Jogos. Alinhados com sua postura de iseno poltica, a ltima coisa que os dirigentes do COI querem  entrar em conflito com o governo russo. Ser que permanecero isentos caso as consequncias sejam financeiras? A ver.


5. CIDADES  AT MORAR NA FAVELA FICOU CARO
No valorizadssimo Leblon, na Zona Sul do Rio de Janeiro, nem os barracos escapam da especulao imobiliria
HELENA BORGES

     H alguns anos que os preos dos imveis no Rio de Janeiro deram um salto vertiginoso. Contriburam para isso o pr-sal, anunciado como o pote de ouro no fim do arco-ris, e as melhorias que a Olimpada de 2016 promete deixar como legado. Hoje, a mdia de preo do metro quadrado na cidade  de 9500 reais. Nenhum bairro foi mais afetado por essa valorizao do que o Leblon, uma tripa de 2 quilmetros quadrados espremida entre o mar e a Lagoa Rodrigo de Freitas. L, o metro quadrado est em 22.208 reais  campeo nacional. Os nicos trechos do Leblon em que ainda custava pouco morar eram as duas favelas nos seus extremos: de um lado, os barracos do Morro do Vidigal; do outro, os apertados apartamentos do conjunto habitacional Cruzada de So Sebastio. No mais. 
     Com a intensificao do policiamento no Vidigal, onde foi instalada uma Unidade de Polcia Pacificadora (UPP), e na regio da Cruzada, ambos ganharam novo status no mercado imobilirio. No alto do morro, onde a vista  deslumbrante e os passarinhos cantam na mata vizinha, um barraco de tijolos aparentes, sem esgoto,  anunciado nos classificados por 300.000 reais. Na Cruzada, onde traficantes e prostitutas circulam pelos ptios internos sujos, uma quitinete de 18 metros quadrados est sendo oferecida por 520.000 reais. Com a mesma quantia se compra um imvel um pouco maior (e muito melhor) em Montmartre, o bairro alto de Paris, ou em Montjuic, a colina onde se alojou o Parque Olmpico de Barcelona. 
     O comprador desse tipo de imvel , na maior parte das vezes, estrangeiro. Norueguesa "de alma carioca", Tanja Olsen, de 26 anos, moradora do Vidigal, explica a escolha: " um lugar que resume o que esperamos da vida no Brasil. Fica ao lado do mar, tem a floresta por perto e facilita o contato com o povo de verdade". Tanja mudou-se para o Brasil em 2011 e instalou-se com o noivo, o cabo-verdiano Carlin Lopes, de 30 anos, no limite da favela com uma reserva florestal, onde a concentrao de barracos  menor.  exatamente nessa espcie de periferia do morro que o preo dos imveis dispara. Tanja, que  designer de interiores, e Lopes, que  arquiteto, ainda pagam aluguel, mas no vem a hora de poder comprar um imvel e se instalar de vez no Vidigal. "Enxergamos grande potencial para abrir uma empresa aqui", diz ela. 
     At o fim do sculo XIX, as famlias ricas do Rio construam suas manses em terrenos altos  inclusive porque se achava que, quanto mais perto do oceano, mais insalubre a rea. Na virada para o sculo XX, deu-se a inverso: uma srie de restries dificultou a edificao em encostas, a orla se valorizou e os mais abastados foram morar de frente para o mar. "O descaso de seguidos governos resultou na ocupao desordenada dos morros pela populao pobre, em busca de moradia barata perto dos postos de trabalho. Estabeleceu-se no Rio o oposto do padro de ocupao de terrenos altos, que costumam ser ponto de partida para a criao de bairros de elite", aponta Cludio Hermolin, diretor regional da PDG, uma das maiores empresas do setor imobilirio da Amrica Latina. O Vidigal, assim chamado por pertencer ao major Miguel Nunes Vidigal, um dos homens mais influentes da cidade no sculo XIX, foi um morro despovoado at os anos 1940. Nas duas dcadas seguintes, a urbanizao do Leblon e de Ipanema resultou na multiplicao de barracos que lhe d a cara atual. O projeto original da Cruzada, um conjunto de dez prdios erguido pela Cria Metropolitana na dcada de 50, era justamente transferir para l famlias faveladas que quisessem melhorar de vida. A Cria acabou deixando a administrao e o condomnio se deteriorou. 
     A valorizao dos imveis no Vidigal e na Cruzada se deve muito ao que se seguiu  intensificao do policiamento na regio. No Vidigal, a UPP tambm trouxe consigo melhoras no trnsito e nos servios bsicos, alm da formalizao de negcios. "Em reas revitalizadas como essas, o custo de vida aumenta, a populao mais pobre no tem condies de arcar com os novos preos e comea a ser substituda por um grupo de maior poder aquisitivo", explica a advogada Fernanda Lisboa, especialista em urbanismo. 
     As grandes empresas do setor ainda esto analisando se investem mais pesado nesse novo nicho. "A empolgao do mercado como um todo esbarra na incerteza sobre o que vai acontecer na cidade depois da Olimpada de 2016", pondera Joo Cabral, dono de imobiliria no Rio. Se os avanos forem mesmo duradouros, os preos na favela continuaro, como diz um samba famoso, "pertinho do cu". 


6. DEMOGRAFIA  SEM PORTA DE SADA
O Bolsa Famlia completa dez anos com um quarto dos brasileiros recebendo o auxlio. A ajuda  necessria, mas seria melhor uma soluo para tir-los do crculo vicioso da esmola.
FERNANDA ALLEGRETTI

     Na cidade maranhense de Junco do Maranho, a maioria dos 3790 habitantes passa o dia vendo televiso, cuidando dos afazeres domsticos ou batendo papo na porta de casa. So raros os que tm horrio para cumprir no trabalho. Isso porque, em Junco, 90,5% da populao vive com o dinheiro do Bolsa Famlia.  o municpio brasileiro com a maior proporo de cidados assistidos pelo programa federal. Lanado no primeiro mandato do presidente Lula, o Bolsa Famlia completa uma dcada no ms que vem. O objetivo anunciado era reduzir a pobreza e a desigualdade social com a transferncia direta de dinheiro s famlias miserveis. Dez anos depois, a pobreza de fato regrediu. Em 2003, o Brasil tinha 12% da populao vivendo com menos de 2,8 reais por dia. Em 2011, o ndice caiu para 4,2%. O Bolsa Famlia contribuiu para essa melhora, mas, obviamente, no foi o nico responsvel pelo bom resultado. 
     Impulsionado pelo consumo mundial de commodities como ao e ferro, o PIB do pas experimentou um crescimento anual mdio de 4,3% entre 2004 e 2011. O estmulo econmico fez ascender para a chamada nova classe mdia 35 milhes de brasileiros. O poder de compra do salrio mnimo e o total de crianas matriculadas nas escolas aumentaram. Embora a pobreza venha diminuindo, a quantidade de dependentes do Bolsa Famlia cresce a cada recadastramento. Em uma dcada, o nmero saltou de 3,6 milhes de famlias para 13,8 milhes. Ao todo, so hoje subsidiados 50 milhes de brasileiros, um quarto da populao do pas. Nesse perodo, apenas 1,7 milho de famlias deixaram de receber o auxlio. Os nmeros superlativos fazem do Bolsa Famlia o maior programa de transferncia de renda condicionada do mundo. 
     A dona de casa Lucinete de Laurena Nobre, de 39 anos, mora em Junco do Maranho e recebe o auxlio do governo desde que ele foi criado. Deixou de plantar mandioca, arroz e feijo. Diz ela: "Agora, s meu marido vai para a roa, eu no preciso ficar embaixo do sol. Com os 216 reais que recebo, consigo comprar comida e material escolar para meus cinco filhos". Lucinete no se incomoda em ser beneficiria h tanto tempo: "Tomara que continue assim o resto da vida,  uma segurana para mim. Aqui em Junco s circula dinheiro do Bolsa Famlia e de aposentadoria. As poucas vagas de trabalho que surgem so na prefeitura". 
     Para receber o recurso, a renda mensal da famlia no pode ultrapassar 140 reais por pessoa. A alta taxa de analfabetismo total e funcional entre os beneficirios impede que eles compreendam bem as regras do auxilio, o que causa problemas aos gestores municipais, que so indicados pelos prefeitos e responsveis pelo cadastramento e acompanhamento das famlias. Flvia Sarti  gestora em Barra do Chapu, cidade a 370 quilmetros da capital paulista que tem a maior porcentagem de habitantes (58%) que recebem o Bolsa Famlia no Estado. Diz ela: "As pessoas perdem o benefcio pelas razes mais diversas: no mantm a vacinao dos filhos em dia, as crianas faltam muito  escola, arrumam um emprego fixo ou se aposentam, e acham que eu fico com o dinheiro ou quero prejudic-las. J quase apanhei por causa disso". 
     O Bolsa Famlia est presente em todos os 5570 municpios brasileiros. Destes, 1750 tm mais da metade da populao vivendo parcial ou totalmente com o recurso federal. Ocorre que muitos beneficirios continuam sem perspectiva ou oportunidade de encontrar uma ocupao.  certo que, na vida em sociedade, a maioria produtiva deve auxiliar os incapazes, mas permitir que famlias inteiras sejam subsidiadas para sempre por um sistema que no estimula sua fora de trabalho  favorecer a dependncia. 
     O programa custa aos cofres federais 24 bilhes de reais por ano. Parece uma montanha de dinheiro, mas a soma no ultrapassa 0,5% do PIB. Nos cinco primeiros meses deste ano, foram gastos 10 bilhes de reais com o auxlio. No mesmo perodo, o governo gastou 10,1 bilhes com gratificaes por exerccio de cargos, funes e comisses dos funcionrios pblicos, segundo dados da ONG Contas Abertas. Em contrapartida, o retorno poltico  imenso. 
     Os cidados que recebem a mesada federal vem Lula como o responsvel pelos repasses de dinheiro. "Foi por causa do Lula que eu parei de depender dos meus pais e consegui alugar uma casinha", diz Evanilde Santos da Silva, piauiense de 32 anos, moradora de Sebastio Barros, a 840 quilmetros de Teresina. A americana Wendy Hunter, especialista em governos latino-americanos e autora do livro A Transformao do Partido dos Trabalhadores no Brasil, publicado em ingls pela editora da Universidade de Cambridge, liderou um estudo em trs municpios do Nordeste brasileiro sobre o vnculo poltico do Bolsa Famlia. Diz ela: "Apesar de o Nordeste ser uma regio onde o coronelismo  recorrente, no constatamos que o programa seja usado como moeda de troca nas eleies. Por outro lado, o auxlio est muito vinculado a Lula. Quando perguntadas sobre quem lhes dava o benefcio, todas as famlias responderam que era o ex-presidente". 
     Programas de transferncia de renda so especialmente populares na Amrica Latina e no Caribe, regies clebres pela pobreza histrica combinada a governos populistas. No Mxico, os dependentes do programa Oportunidades j somam um quarto da populao. No Equador, metade dos cidados tem a renda composta do chamado Bnus de Desenvolvimento Humano. Extinguir o Bolsa Famlia e abandonar as famlias miserveis  prpria sorte obviamente no  a soluo. E nenhum governante lcido ousaria faz-lo. Mas, dez anos depois, convm buscar um caminho capaz de tirar as pessoas com capacidade produtiva do crculo vicioso da esmola. 

OS DEZ ANOS DO BOLSA FAMLIA
O nmero de beneficirios se multiplica e poucos deixam o programa.

Famlias beneficiadas
2003: 3,6 milhes
2013: 13,8 milhes

Pessoas beneficiadas
2003: 14,7 milhes
2013: 50 milhes

Porcentagem da populao
2003: 8,34%
2013: 24,79%

Nmero de famlias que deixaram voluntariamente de receber o benefcio 1,7 milho

Em 1/3 dos 5570 municpios brasileiros, 50% da populao vive  custa do Bolsa Famlia

Para onde vai o dinheiro
Porcentagem dos 24 bilhes de reais anuais do Bolsa Famlia recebida por cada regio
Nordeste 52%
Sudeste 23%
Sul 7%
Centro-Oeste 5%
Norte 13%

Os miserveis
Porcentagem da populao que vive com menos de 1,25 dlar por dia
2003 12%
2011 4,2%

ADEUS AO TRABALHO - Lucinete Nobre mora em Junco do Maranho, o municpio com a maior proporo de habitantes assistidos pelo Bolsa Famlia. Ela deixou de trabalhar na roca e sustenta a famlia com os 216 reais que recebe por ms: "Tomara que continue assim pelo resto da vida.
VIDA NOVA  - O prefeito Valdomiro Guimares, de Ribeiro do Largo, na Bahia, e a primeira-dama Adilma Novaes Brito: nascida numa famlia de agricultores, ela recebeu o Bolsa Famlia por trs anos, at o marido entrar para a poltica.
NA ATIVA  Maria Aparecida Maciel de S morra em Barra do Chapu, municpio com o maior nmero de dependentes do Bolsa Famlia no Estado de So Paulo. Ela recebe 300 reais por ms e est grvida do quarto filho, mas recusa-se a largar o batente: s vezes trabalho de domstica ou na roa e cobro 35 reais pelo servio.
FILA DO CAIXA - Em Sebastio Barras, no Piau, como 90% da populao   dependente do programa, o dinheiro costuma acabar antes do meio-dia.


7. DEMOGRAFIA  CENSO SEM SENTIDO
A Inglaterra, o primeiro pas a listar todas as suas propriedades, em 1086, quer acabar com a contagem de porta em porta dos habitantes, para cortar custos. Isso s  possvel onde a burocracia estatal funciona.
NATHALIA WATKINS

     Em tempos de paz, no h operao que recrute tanta gente em um perodo de tempo to curto como os censos demogrficos. Em um dos seus antecedentes mais antigos, o Domesday Book (Livro do Dia do Juzo Final, em ingls), o normando Guilherme, o Bastardo, que em 1066 atravessou o Canal da Mancha com 700 navios e invadiu a Inglaterra, passando a ser chamado de Conquistador, mandou seus assessores esquadrinhar cada canto do reino que acabara de subjugar. Em 1086, eles anotaram o nome do dono de cada pedao de terra, cada porco, cada vaca. Para saber quanto imposto Guilherme poderia arrecadar, era preciso conhecer exatamente a riqueza de seus sditos. Os dois livros manuscritos que resultaram dessa enorme pesquisa so guardados ainda hoje. O que foi registrado ali no poderia mais ser alterado, da a comparao com o final dos tempos. Quase 1000 anos depois, o trabalho para realizar esse tipo de coleta aumentou, assim como os custos envolvidos. O ltimo censo na Inglaterra foi orado em quase 500 milhes de libras, o equivalente a mais de 1,7 bilho de reais. Foi o suficiente para que surgissem propostas para elimin-lo. No ano que vem, duas alternativas sero apresentadas aos parlamentares ingleses. A primeira  enviar aos habitantes um questionrio pela internet. A segunda  utilizar os dados que o governo j tem dos seus cidados, armazenados nos servios de sade, educao, correios e nos governos locais. O quebra-cabea final, to fiel quanto o censo tradicional, teria vrias vantagens. "Utilizar ferramentas mais modernas pode trazer estatsticas de qualidade em um tempo mais curto e a um custo menor", diz o economista Chris Yiu, chefe da equipe de governana digital da ONG inglesa Policy Exchange. 
     Se os ingleses optarem por encerrar a pesquisa feita de porta em porta, eles no sero os primeiros. Em 1970, a Noruega e a Finlndia produziram todas as informaes necessrias para orientar suas polticas pblicas apenas juntando os dados que j possuam sobre a populao. Holanda, Eslovnia e ustria aderiram depois. Nos Estados Unidos e na Frana, informaes demogrficas so obtidas por meio de dados administrativos e tambm de pesquisas regionais, realizadas anualmente at que se cubra todo o territrio. Dessa forma, os custos so divididos ao longo do tempo. Ainda assim, a presso para terminar com os censos nesses pases  grande. Nos Estados Unidos, o custo dessa operao duplica a cada dez anos e chegou a 15 bilhes de dlares em 2010. 
     Um dos principais motivos para esse aumento  o salrio pago a cada um dos recenseadores, que aumenta progressivamente. A outra  que os cidados esto menos propensos a dar informaes pessoais a estranhos, o que obriga o recenseador a retornar outro dia. Nem sempre foi assim. A reportagem da edio de VEJA de 2 de setembro de 1970, por exemplo, conta que no censo daquele ano o pesquisador Jos Silveira, de Minas Gerais, foi internado por intoxicao, porque em cada casa que visitava lhe ofereciam alguma bebida. No intervalo de doze horas, ele tomou "oito cachaas, trs batidas, um cinzano e 25 cafezinhos modos no momento". No se v mais tanta hospitalidade. "O modelo de censo tradicional tornou-se menos aceito e menos confivel", diz o gegrafo David Martin, da Universidade de Southampton, na Inglaterra. 
     O ltimo censo brasileiro, em 2010, custou 1,5 bilho de reais, mas dificilmente ser o ltimo. A principal razo  a falta de um registro nico que identifique o cidado. Na Holanda, um mesmo cdigo pessoal, que fica inscrito no passaporte, na carteira de motorista e na cdula de identidade, est atrelado aos dados mdicos e escolares de todos. Um brasileiro, contudo, tem vrios documentos, como RG e CPF, que so usados em situaes especficas, dependendo da repartio estatal. Muitos brasileiros nem sequer tm documentos. "Os nossos registros administrativos so ruins, especialmente para as regies mais pobres e distantes dos grandes centros urbanos", diz o demgrafo Jos Eustquio Diniz Alves, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica (IBGE). 
     H mais de 2000 anos, j era contada a populao de reinos da sia e de tribos do Oriente Mdio com o propsito de saber quantos homens poderiam ser recrutados em uma eventual guerra. Os romanos tambm mantinham um registro da populao. O Domesday Book, de 1086, tinha como finalidade a coleta de impostos. O efeito secundrio foi que, ao registrar o nome do dono de cada hectare, o livro se tornou uma garantia dos direitos do proprietrio. Embora hoje boa parte da riqueza mundial seja produzida em pases como a China e a ndia, Londres continua sendo um centro financeiro graas em parte a sua tradio de segurana jurdica. A cidade  um dos lugares em que os investidores mais tm confiana nos direitos de propriedade. No fim do sculo XVIII surgiram os censos modernos, que buscavam a maior quantidade de informao possvel sobre uma sociedade para orientar as polticas pblicas. Esse dados continuam sendo imprescindveis para tal fim, mas eles podem ser obtidos de outras maneiras.  COM REPORTAGEM DE TMARA FISCH


8. SOCIEDADE  LECIONA-SE BRASIL: NO DIGA NO
Empresas que trazem altos executivos contratam consultores para ajud-los com mistrios locais: instalar TV a cabo, entender a informalidade e conviver com atrasos.
MARLIA LEONI

     Comparado a grandes centros globais de atrao de mo de obra qualificada, o Brasil ainda est quase  margem do mundo. Na Inglaterra, mal saindo da recesso, o governo estabeleceu a cota de 20.700 vistos de trabalho de alta qualificao concedidos anualmente a estrangeiros. No Brasil, o nmero quase triplicou de 2008 para 2012  de 2300 passou para 6000. Os novos fatores de atrao so obras e servios da Copa do Mundo, da Olimpada e das novas reas de extrao de petrleo e gs. Permanecem as oportunidades de evoluo na carreira para executivos de companhias com matriz no exterior cujos cargos mais altos j esto ocupados. Para as empresas, manter um profissional no Brasil durante trs anos custa em mdia 1 milho de dlares. Interessam-se, portanto, em diminuir o "ndice de desistncia", formado por aqueles que vo embora antes do prazo, geralmente por falta de adaptao das famlias. No passado recente, os desistentes chegavam a 75% do total. Especialistas em realocao contratados pelos empregadores esto tentando diminuir essa taxa. Basicamente, eles funcionam como guias nos meandros burocrticos nacionais e do "aulas de Brasil" para introduzir os alunos nas inevitveis diferenas culturais. 
     Americanos, franceses, portugueses e espanhis so as principais nacionalidades da atual leva de profissionais estrangeiros. Chegam com imagens intimidantes sobre a criminalidade e idlicas em relao s belezas naturais. "Auxilio na procura por apartamento, nas conversas com a empresa de TV a cabo  que nunca aparece  e a achar vaga para os filhos em boas escolas", explica Cristina Santos, scia de uma empresa do setor. "Achar apartamento  um problema porque todos querem um de frente para o mar. E vaga em escola internacional tem fila de at 300 crianas, devido ao aumento no nmero de estrangeiros chegando aqui", diz Cristina.
 claro que, tal como brasileiros no exterior acham muitos estrangeiros excessivamente fechados, os hbitos nacionais de intimidade instantnea e amenizao de choques sociais causam estranhamento. "Eles no entendem por que, numa reunio de negcios, falamos de vrios assuntos dispersos, que no os de trabalho", diz Mariana Barros, que se formou em relaes internacionais e trabalha com "treinamento intercultural", servio que ajuda os estrangeiros a entender o Brasil. "Vocs se ofendem facilmente com crticas profissionais", reclama o italiano Marco Gerace, diretor de uma das empresas responsveis pela expanso do metr em So Paulo. "Os brasileiros no entendem nossa insistncia em organizar tudo at os ltimos detalhes. Aqui,  tudo no improviso", queixa-se o suo Sven Schaeffner, chefe do departamento de TV da Fifa, recentemente transferido para o Rio de Janeiro. Mariana Barros d dicas conciliatrias. "Sugiro aos meus alunos que escolham logo um time de futebol por aqui. Isso vai aproxim-los dos colegas no cafezinho. Se conseguirem ver novela de vez em quando, melhor ainda". 
     O maior obstculo  fixao dos executivos estrangeiros, porm, origina-se nas esposas. Muitas deixam emprego prprio para acompanhar o marido e tm de lidar com questes desgastantes. "Como ningum fala ingls, fazer supermercado, pegar txi e conversar com os funcionrios de casa viram tarefas impossveis", diz a consultora Andra Fuks. Uma de suas alunas, a francesa Soizic Gelbard, tentou durante um ano e meio abrir uma pequena empresa e foi quase vencida pela burocracia. Alm disso, as mulheres tm medo da violncia e algumas no saem de casa nem com carro blindado fornecido pelas empresas. Tambm leva um tempo at que se captem as nuances culturais. "Quando o brasileiro diz 'talvez', quer dizer no; quando diz 'vou pensar', quer dizer no; quando diz 'vamos, sim', pode ser que queira dizer no. Para ns, parece enrolao", suspira Andrew Downie, jornalista escocs que mora em So Paulo. O suo Schaeffner se exaspera: "Vocs tm dificuldade em cumprir prazos. Quando se trata de uma Copa, onde todos vem os resultados, a coisa  ainda mais sria". 
     O francs Olivier Lefebvre, vice-presidente de uma multinacional de autopeas em So Paulo, que olhou 28 apartamentos antes de se decidir pelo seu e s captou o sotaque local assistindo a muita novela, foi levado, com a famlia, pela consultora Mariana Barros para conhecer o Mercado Municipal, onde viram o fruto do cacaueiro pela primeira vez. "Tambm se impressionaram com o tamanho dos lanches. E das filas", diz ela. Fila aqui  padro Fifa. 

DVIDAS EXISTENCIAIS
Se at ns s vezes nos surpreendemos, imagine a reao dos estrangeiros diante de certos hbitos culturais. As indagaes mais frequentes deles:
Quando dizem "vamos marcar de sair" e nunca mais entram em contato, acham que fizemos algo errado?
Qual , afinal, a razo de no conseguirem ser diretos e falar no?
O tempo arrastado para fechar um negcio  normal?
Manuais e protocolos das empresas no existem para ser seguidos? E as metas para ser cumpridas?
Reunies, reunies e mais reunies, e ainda tratando de assuntos paralelos. No que isso ajuda?
Por que nunca, jamais, chegam na hora?


